P a l a v r a
Os poetas classificam as palavras pela alma porque gostam de brincar com elas e para brincar com elas é preciso ter intimidade primeiro. É a alma da palavra que define, explica, ofende ou elogia, se coloca entre o significante e o significado para dizer o que quer, dar sentimento às coisas, fazer sentido. Nada é mais fúnebre do que a palavra fúnebre. Nada é mais amarelo do que a amarelo-palavra. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme. A palavra tempo passa. A palavra fogo queima. A palavra palavra diz. O que quer. E nunca desdiz depois. As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas. A palavra juro não mente. A palavra sou não vira casaca. A palavra amor não se acaba. A palavra idéia não muda. Palavras nunca mudam de idéia. Palavras sempre sabem o que querem. Quero não será desisto. Sim jamais será não. Sexta-feira não vira sábado nem depois da meia noite. Noite nunca vai ser manhã. Um não serão dois em tempo algum. Dois não será solidão. As palavras também têm raízes mas não se parecem com plantas, a não ser algumas dela, verde, caule, folha, gota. As células das palavras são as letras. A boca abre ou fecha quando a vogal manda. As palavras fechadas nem sempre são mais tímidas. A palavra sem vergonha está aí de prova. Porta é uma palavra que fecha. Janela é uma palavra que abre. A palavra óculos é séria. Existem palavras frias como mármore. Existem palavras quentes como sangue. Existem palavras bonitas, madrugada. Existem palavras que dispensam imagens, nunca, vazio, nada, escuridão. Toda palavra tem a cara do seu significado. A palavra pela palavra tirando o seu significado fica estranha, é só letra e som.
Adriana Falcão
2 comments:
Lindo... lindas palavras... as lágrimas desceram qdo li... demais...
bjs!!!
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