Wednesday, December 20, 2006

Este Natal




"Este Natal" é um texto divertido de Drummond onde mostra o natal na ótica de alguém que que via tudo na sociedade de maneira diferente, pois poetizava cada ação do mundo exterior. Pessoas e acontecimentos eram a matéria prima desse mestre nas palavras. E a matéria prima da vez era o natal de 1966. Penso que Drummond olhava a vida passar e não deixava nada da vida passar, entende? Prendia essa vida no papel através da caneta e da máquina de escrever. Extraído do livro "Caminhos de João Brandão", o texto "Este Natal" é um relato escrachado e irônico, e fala sobre a confiança no próximo que agente vai perdendo e é obrigado a perder. Não era pra ser assim.
Que possamos buscar lá no fundo da nossa existência, bem lá no fundo mesmo se for preciso, o que ainda resta de confiança no próximo e em nós mesmos. Não desistir de confiar. Confiar, amar, se dar, essas coisas tão essenciais pra alma, mas que se perdeu com o tempo na nossa sociedade furtada de amor e transbordante em egoísmo.
Sobretudo confiar em Deus! Acreditar não em papai noel, renas e duendes, mas no menino Deus que nasceu e que por nós um dia se deu na cruz por amor. Você consegue confiar? Eu quero! Pra que o natal que Drummond escreveu em 1966 não se torne realidade, rsrs... Depende de nós.
Termino esse comentário antes do texto "Este Natal" com um verso da música "Mais uma vez", de Flávio Venturini e Renato Russo que diz assim: " ...Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo! Quem acredita sempre alcança"... Não é isso? Então é!rsrs
Confiar e acreditar, desafio!
E vamos ao Drummond. srsrs...Bom Natal!!
Denilson Prata
Este Natal
— Este Natal anda muito perigoso — concluiu João Brandão, ao ver dois PM travarem pelos braços o robusto Papai Noel, que tentava fugir, e o conduzirem a trancos e barrancos para o Distrito. Se até Papai Noel é considerado fora-da-lei, que não acontecerá com a gente?Logo lhe explicaram que aquele era um falso velhinho, conspurcador das vestes amáveis. Em vez de dar presentes, tomavaos das lojas onde a multidão se comprime, e os vendedores, afobados com a clientela, não podem prestar atenção a tais manobras. Fora apanhado em flagrante, ao furtar um rádio transistor, e teria de despir a fantasia.— De qualquer maneira, este Natal é fogo — voltou a ponderar Brandão, pois se os ladrões se disfarçam em Papai Noel, que garantia tem a gente diante de um bispo, de um almirante, de um astronauta? Pode ser de verdade, pode ser de mentira; acabou-se a confiança no próximo.De resto, é isso mesmo que o jornal recomenda: "Nesta época do Natal, o melhor é desconfiar sempre".Talvez do próprio Menino Jesus, que, na sua inocência cerâmica, se for de tamanho natural, poderá esconder não sei que mecanismo pérfido, pronto a subtrair tua carteira ou teu anel, na hora em que te curvares sobre o presépio para beijar o divino infante.O gerente de uma loja de brinquedos queixou-se a João que o movimento está fraco, menos por falta de dinheiro que por medo de punguistas e vigaristas. Alertados pela imprensa, os cautelosos preferem não se arriscar a duas eventualidades: serem furtados ou serem suspeitados como afanadores, pois o vendedor precisa desconfiar do comprador: se ele, por exemplo, já traz um pacote, toda cautela é pouca. Vai ver, o pacote tem fundo falso, e destina-se a recolher objetos ao alcance da mão rápida.O punguista é a delicadeza em pessoa, adverte-nos a polícia. Assim, temos de desconfiar de todo desconhecido que se mostre cortês; se ele levar a requintes sua gentileza, o melhor é chamar o Cosme e depois verificar, na delegacia, se se trata de embaixador aposentado, da era de Ataulfo de Paiva e D. Laurinda Santos Lobo, ou de reles lalau.Triste é desconfiar da saborosa moça que deseja experimentar um vestido, experimenta, e sai com ele sem pagar, deixando o antigo, ou nem esse. Acontece — informa um detetive, que nos inocula a suspeita prévia em desfavor de todas as moças agradáveis do Rio de Janeiro. O Natal de pé atrás, que nos ensina o desamor.E mais. Não aceite o oferecimento do sujeito sentado no ônibus, que pretende guardar sobre os joelhos o seu embrulho.Quem use botas, seja ou não Papai Noel, olho nele: é esconderijo de objetos surrupiados. Sua carteira, meu caro senhor, deve ser presa a um alfinete de fralda, no bolso mais íntimo do paletó; e se, ainda assim, sentir-se ameaçado pelo vizinho de olhar suspeito, cerre o bolso com fita durex e passe uma tela de arame fino e eletrificado em redor do peito. Enterrar o dinheiro no fundo do quintal não adianta, primeiro porque não há quintal, e, se houvesse, dos terraços dos edifícios em redor, munidos de binóculos, ladrões implacáveis sorririam da pobre astúcia.Eis os conselhos que nos dão pelo Natal, para que o atravessemos a salvo. Francamente, o melhor seria suprimir o Natal e, com ele, os especialistas em furto natalino. Ou — idéia de João Brandão, o sempre inventivo — comemorá-lo em épocas incertas, sem aviso prévio, no maior silêncio, em grupos pequenos de parentes, amigos e amores, unidos na paz e na confiança de Deus.
(CaRloS Drummond de AndraDe 14-12-1966)
Texto extraído do livro "Caminhos de João Brandão",
José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1970, pág. 84.

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