Sunday, January 28, 2007

Mais uma luta...



Mais uma vez, estou imerso em minhas lutas. Sinto-me mal. Saudade, dor. Quero sair daqui, sair de mim, encontrar a alegria de ser melhor, dentro de mim isso não é possível. Dentro de mim turbulências! Estou meio louco, meio perdido. Quero colo, mas não fujo de casa, não tenho mais idade pra fugir, não tenho pra onde ir. Preciso de ajuda, preciso ir a praia. Lá me liberto, de amarras que a areia da praia pode arrancar de meus punhos, essas cordas que a água salgada pode poir. Talvez um mergulho eterno, não volto, não quero voltar! Dá medo regressar.
A praia sempre me acolhe, os pés na areia, o calçadão. Ando o Arpoador pensando em notas, melodias, harmonias ousadas. Sigo Ipanema pensando em casa, no meu filho. Chego ao Leblon pensando em mim. Não, não quero pensar em mim, travo um duelo infernal com minha realidade, tento suprimir minhas verdades, não consigo. Elas são fortes, invencíveis. Sempre vencem-me. Já não agüento mas perder, perder-me. Tento suprimir erros, defeitos, eles teimam em exibir-se. Fazem show, platéia lotada. E eu, sigo envergonhado, de cada passeio na praia. Vejo-me travado, não cresci, sou o mesmo! A cada passo entre o branco e o preto das pedras portuguesas, sou eu ainda. Incapaz de crescer, ser melhor! Quando poderei eu percorrer minha vida nesse imenso calçadão e vislumbrar minhas vitórias? Queria tanto enxergá-las, gozá-las, como um sorvete no calor 40º carioca. Queria seguir, andar sorrindo nessa passarela de minh’alma. Talvez descubra outras verdades em mim. Não, não tenho coragem de procurar. Conheço minhas verdades, e o quanto sou melindroso. Da bela e a fera sou a parte mais feia. Sou fera, estou ferido! Estaciono meus passos no final do Leblon, olho o Mirante. Acho que vou subir. Subo. A vista daqui é linda, e o sol já vai se pôr. Mas, devo descer, pra ver o crepúsculo lá de baixo mesmo. Vou voltar pro Arpoador, ver o sol “vazando” lá das pedras desertas. Que lindo olhar a orla lá das pedras . Aos poucos o sol se vai, e os prédios vão se iluminando e com eles toda orla. O hotel “Marina” quando acende, não é por mim, nem lembra o amor, como diz a música, mas é lindo vê-lo acender. O “Dois Irmãos” iluminado é fascinante. Só vendo. E assim, pouco a pouco esqueço de mim. Vivo um momento bonito. Ouço aplausos. É o sol indo embora, todos reconhecem assim a beleza do fim da tarde carioca com as palmas vibrantes. Vou descer as pedras, as ruas desertas. Vou caminhar até Copa. Sento no último banquinho do calçadão da Atlântica. Drummond, amigo de sempre, está ali, sentado, como sempre, como os dias, sentado e imóvel, receptivo as minhas confissões. Gosta de ouvir minhas mazelas. E eu, coração doído, despejo todas alí. O último banquinho do calçadão transforma-se num divã, consultório a céu aberto. Meninas passam, olham-me, sorriso debochado, pensam que sou louco. Estou alí a conversar com a estátua de chumbo ou cobre, não sei. Mas estou alí a me derramar, a dissolver-me. Olho minha vida inteira. Não confronto muito tempo pois há tanta coisa pra acertar. Quero sair correndo. Tento encorajar-me, com o fluxo de carros e correr com eles até Botafogo. Drummond como se voltasse à vida, segura meu braço e não me deixa ir. Se não tenho certeza se quero ir, porque me encorajar em vão? Se tento me encorajar é porque não tenho coragem. Abaixo a fronte tristonha. A cabeça negativamente gesticula ao meu amigo poeta. Não tenho coragem. É melhor voltar pelo mesmo caminho. Antes, quero molhar os pés na marula, lavar os grãos de um caminho deprimente. QUERO SER MELHOR! As águas salgadas nos pés selam o compromisso. Quero ser melhor, preciso! Dependem disso os que comigo convivem. Sinto-me inconveniente com meu proceder, meu temperamento. Não me agüento. Vou pra casa. Os pensamentos que me surgem no regresso pra casa agora são agradáveis. Sinto-me motivado a ser melhor, agradável a todos, conviver bem com os meus. O riso estampou-se em meu rosto outrora tenso. A testa franzida, que me rendia dores de cabeça diárias, deu lugar ao sorriso. Não sinto mais aquelas dores. O sorriso cura toda dor. Sinto uma ponta de felicidade. Vivo num instante raro, alegria de pessoa realizada. A cada passo na volta pra casa, pensamentos bons estavam sendo concebidos. Tenho passos a dar, metas a cumprir. Já podia sentir o gozo de viver todos aqueles pensamentos na realidade, no meu dia-a-dia. E noutro dia, quem sabe, eu volte pra conversar com Drummond, e falar sobre ser melhor. Os conselhos do poeta são valorosos, quero segui-los, talvez eu consiga ser melhor. Quero ser melhor! Quero viver!

Denílson Prata

E aqui estão os conselhos do meu velho amigo que vive sentado no ultimo banco do calçadão de Copacabana ...Drummond..Carlos..obrigado por escrever esse texto.

PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano não é o último dia do tempo.
Outros dias virão e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis, farás viagens e tantas celebrações de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral, que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor, os irreparáveis uivos do lobo, na solidão.
O último dia do tempo não é o último dia de tudo. Fica sempre uma franja de vida onde se sentam dois homens. Um homem e seu contrário, uma mulher e seu pé, um corpo e sua memória, um olho e seu brilho, uma voz e seu eco, e quem sabe até se Deus...Recebe com simplicidade este presente do acaso. Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também. Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte, mas estás vivo.
Ainda uma vez estás vivo, e de copo na mão esperas amanhecer. O recurso de se embriagar. O recurso da dança e do grito, o recurso da bola colorida, o recurso de Kant e da poesia, todos eles... e nenhum resolve.
Surge a manhã de um novo ano. As coisas estão limpas, ordenadas. O corpo gasto renova-se em espuma. Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida. A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca, lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade
In Reunião — 10 Livros de Poesia
Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1971

1 comment:

Raquel said...

Impressionada.